Em um cenário global cada vez mais protecionista, uma proposta de tarifa de 50% sobre importações americanas — defendida por Donald Trump em sua nova plataforma política — reacendeu alertas no Brasil. E um dos setores mais sensíveis a esse movimento é justamente um dos mais tradicionais da nossa economia: o café.
Enquanto os americanos tomam seu cappuccino em Nova York, é possível que o grão que o compõe tenha saído de uma fazenda em Minas Gerais. E, com essa tarifa, o caminho desse grão pode mudar — afetando toda uma cadeia de produção, exportação e resultado empresarial no Brasil.
Café não é só bebida — é estratégia nacional
O café responde por cerca de 4% das exportações totais do Brasil. Em 2023, movimentou mais de R$ 40 bilhões e sustentou empregos, balança comercial e um pedaço importante do nosso PIB agroindustrial.
Com a nova tarifa em cima dos produtos brasileiros, estimamos que o preço do café pro consumidor final suba entre 40-60% nos Estados Unidos. Mas não estamos falando do preço só do café brasileiro, estamos falando do preço café em geral. Sim, o aumento de preço geral pode ser maior do que as taxas impostas exclusivamente ao Brasil. O desajuste na oferta e demanda tende a ter um impacto desproporcional nos preços, especialmente em mercados de demanda inelástica como o do café. Esse fenômeno é chamado pelos economistas de overshifting.
Em 2018 o governo Trump em sua primeira administração impôs tarifas de até 50% em máquinas de lavar importadas e os preços das referidas máquinas subiram entre 55% e 115%. Neste link paper da Universidade de Chicago estudando este fenômeno.
A Guerra da Ucrânia fez o preço do petróleo mundial disparar 46%, isso que Ucrânia e Rússia são responsáveis por aproximadamente 12% da produção mundial. Na questão do café, estamos falando de um aumento abrupto de 50% no custo de um produtor que representa 30% do mercado.
Se considerarmos que outros grandes fornecedores como Colômbia (20% das importações americanas) também sofrerão tarifas (menores mas ainda significativas), a tendência é que o aumento nos preços ao consumidor seja ainda maior.
Vale lembrar: o que exportamos, majoritariamente, é café verde, ainda não torrado. O valor agregado, portanto, fica nos EUA — que fazem a torra, embalam, criam marca e lucram em cima do produto final. Somos a base, mas não levamos o crédito final.

Quem domina o mercado americano?
Em 2024, o ranking dos maiores exportadores de café para os EUA, segundo estimativas Klooks, ficou assim:
🇧🇷 Brasil – 30%
🇨🇴 Colômbia – 20%
🇻🇳 Vietnã – 15%
🇭🇳 Honduras – 10%
🇪🇹 Etiópia – 5%
🌍 Outros – 20%
Ou seja: o Brasil é líder, mas há concorrência de peso de países com estruturas logísticas otimizadas e, em muitos casos, acordos comerciais mais favoráveis com os EUA.
E como isso afeta as empresas brasileiras?
Se a tarifa for confirmada, o impacto não será apenas macroeconômico. Ele será sentido no caixa de quem está na linha de frente.
Utilizando a base de dados da Klooks, analisamos dois players relevantes da cadeia exportadora: Café Utam e Ipanema Agrícola. Ambas exportam aos EUA, mas com perfis distintos. Abaixo, o comparativo com base nos dados da Klooks:

Segundo estimativas de mercado e análises de dependência comercial disponíveis na plataforma Klooks, o mercado americano representa, em média, 20% da receita das principais exportadoras brasileiras de café, especialmente daquelas que atuam com café verde (não beneficiado). Essa participação foi estimada com base em volume exportado, país de destino e distribuição regional de vendas divulgadas por fontes setoriais como OIC.
Com isso em mente, fizemos uma simulação para entender o que aconteceria se, no pior cenário, essas empresas parassem de exportar para os EUA — seja por inviabilidade econômica após a tarifa, seja por perda de contratos.
A Café Utam, que em 2024 teve receita líquida de R$ 160 milhões e margem EBITDA de 11,5%, trabalha com margens mais comprimidas e exposição significativa à volatilidade cambial e ao risco tarifário. Se perdesse 20% de receita relacionada às exportações para os EUA, isso representaria uma queda de aproximadamente R$ 32 milhões no top line. Dado seu perfil de custos fixos e estrutura operacional enxuta, estimamos que o EBITDA cairia de R$ 18,4 milhões para cerca de R$ 12 milhões — uma redução de 35%.
Já a Ipanema Agrícola, com receita líquida de R$ 229 milhões e margem EBITDA de 56%, tem maior resiliência. Ainda assim, a perda de R$ 45 milhões em receita pode gerar um impacto relevante, estimado em uma redução de 15% no EBITDA — saindo de R$ 128,6 milhões para R$ 109,3 milhões.
Mesmo empresas financeiramente saudáveis como elas vão sentir o impacto. No caso da Café Utam, isso pode representar a diferença entre ter fôlego para crescer — ou ter que encolher. No caso da Ipanema, mesmo com eficiência operacional e margem folgada, a perda de escala pode gerar uma pressão real sobre planejamento, capacidade ociosa e alocação de recursos.

Estratégias possíveis
Nesse novo tabuleiro tarifário, as exportadoras precisarão rever estratégias. Entre as opções: diversificação de mercados (com foco em Oriente Médio e Ásia), renegociação de contratos com hedge cambial e tarifário, e ganhos de eficiência operacional para manter margem e caixa sob controle. A inteligência de dados será essencial para mapear riscos, simular cenários e tomar decisões ágeis.
O café é um símbolo do Brasil no mundo. Mas também é caixa, margem e emprego para centenas de empresas e milhares de famílias. Se o jogo comercial muda, é preciso saber jogar diferente. E isso começa por entender os números.
Na Klooks, acompanhamos de perto esses movimentos, analisando dados financeiros de milhares de empresas brasileiras. Se você também acredita que competitividade começa nos números, estamos por aqui para conversar.

