Brasil, Urânio e Poder: o que os balanços das Indústrias Nucleares do Brasil S/A revelam sobre nosso lugar na geopolítica nuclear

11 de julho de 2025 | Geral

Em tempos de guerra, energia é poder. E o Brasil, silenciosamente, pode estar sentado sobre uma das maiores moedas geoestratégicas do século XXI.

Enquanto o mundo reconfigura suas cadeias energéticas e nucleares, os demonstrativos financeiros da INB (Indústrias Nucleares do Brasil) revelam um paradoxo intrigante: crescimento consistente com margem saudável — mas sem escala ou protagonismo global.

Contexto histórico

Tudo começa nos anos 1970, em meio à corrida nuclear global e no auge do regime militar brasileiro. O mundo enfrentava o primeiro grande choque do petróleo, e a vulnerabilidade energética dos países importadores se tornava evidente: o mundo inteiro era dependente do oriente médio. Começou uma corrida global pela energia nuclear, com destaque para a Europa que hoje ainda é altamente dependente, e o Brasil não ficou de fora. Entrou de forma modesta em comparação com os países ricos, mas como um bom brasileiro, não ficou de fora da festa. Não entrou de camarote, é verdade, mas estava lá marcando presença com a criação da NUCLEBRÁS que anos depois se transformou nas INDÚSTRIAS NUCLEARES DO BRASIL S/A.

O país desenvolveu capacidades raras, como a produção nacional de urânio enriquecido, algo que apenas um seleto grupo de nações domina. Tecnologicamente estamos a frente de países como Holanda, Espanha e Itália. Foi mais que um projeto industrial — foi uma afirmação de soberania.

Entendendo o processo

Tudo começa na mineração, onde o urânio é extraído ainda misturado com outros minerais. Esse material passa por um processo de separação e beneficiamento que gera um concentrado de urânio (yellowcake) com pureza entre 70% e 80%. E é aqui que o Brasil tem muito potencial de se diferenciar, como exportador de urânio-minério ou de yellowcake.

Mas mesmo concentrado, esse urânio ainda não está pronto para uso em usinas (ou ogivas). Ele precisa aumentar a proporção do “urânio bom” (U-235), que realmente gera energia (ou explosões).

Para isso, o concentrado de urânio é primeiro convertido em gás e, depois, inserido em centrífugas gigantes que giram em altíssima velocidade. Esse processo faz a concentração do “urânio bom” subir de cerca de 0,7% (nível natural) para 3% a 5%, o intervalo ideal para ser usado como combustível em usinas nucleares — e, com níveis mais altos, também em armamentos nucleares.

 Os números não mentem

Analisando os balanços das Indústrias Nucleares do Brasil S/A na Klooks, vemos que a estatal responsável por produzir e enriquecer urânio para geração de energia cresceu 33% em receita líquida entre 2019 e 2024 chegando a 1.2 bi de reais (223m de dólares). A margem EBITDA, que chegou a 45,7% em 2020, tem oscilado entre 9% e 15% nos últimos anos — patamares que parecem razoáveis para uma empresa que opera com preços subsidiados e forte regulação.

Apesar de aparentar forte crescimento, a performance da INB em dólares revela uma realidade bem diferente: entre 2013 e 2024, a receita em USD na verdade caiu significativamente, saindo de US$ 280 milhões para US$ 223 milhões. Isso ocorreu mesmo com o preço internacional do urânio mais que dobrando no período.

A explicação está na estrutura da empresa: a INB vende com preços subsidiados para clientes estatais e opera com capacidade produtiva limitada, especialmente em mineração e enriquecimento. Ou seja, enquanto o mercado global de urânio se aqueceu, a estatal brasileira não conseguiu capturar esse movimento por depender de demanda interna regulada e de um modelo que prioriza segurança estratégica, não lucro ou exportação.

Embora tenha aparência de uma empresa de porte, a INB é uma anã no cenário global do urânio, e o Brasil, mesmo com reservas significativas, permanece irrelevante do ponto de vista industrial. Em 2024, o país produziu apenas 99 toneladas de concentrado de urânio (yellowcake) e 9,7 toneladas de urânio enriquecido — volumes ínfimos diante das 21 mil toneladas extraídas pela gigante Kazatomprom, do Cazaquistão, ou das produções muito superiores de empresas de outros países.

A INB detém apenas 0,2% da produção mundial de urânio concentrado, enquanto a Kazatomprom lidera com 35,9%. No enriquecimento, a discrepância é ainda maior: a russa Tenex concentra 40% da capacidade global, contra menos de 0,1% da INB. O Brasil tem reservas, mas segue fora do jogo em escala industrial.

Neste link deixamos disponíveis todos os balanços da INB e também o dataset que usamos para essa análise.

Eletronuclear: a única cliente da INB — e o nó da demanda e do xadrez geopolítico

Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras, é atualmente a única cliente da INB, comprando o combustível nuclear produzido para abastecer as usinas Angra 1 e Angra 2 — e futuramente Angra 3, ainda em construção.

Esse monopólio da demanda impõe um teto natural ao crescimento da INB. Mesmo com domínio técnico do ciclo do combustível, a estatal produz sob encomenda, e em volumes limitados, sem acesso a um mercado aberto. Sem novas usinas, não há escalanão há previsibilidade de expansão e não há atratividade econômica para ampliar a capacidade produtiva — o que em parte explica por que o Brasil segue pequeno no mapa global do setor.

Na Klooks vemos que em 2024 a receita da Eletronuclear foi de R$ 4,2 bi (deixamos os balanços aqui pra você), muito superior aos 1,2 bi da INB. Além disso, a margem EBITDA bateu em 34%, que, apesar de parecer alta, é bem inferior ao do segmento de geração de energia elétrica como um todo. Na Klooks vemos que, baseado em 1183 balanços de 2024, a mediana de margem EBITDA em geração de energia elétrica foi de 64%. No entanto, se olharmos pra outras geradoras de energia elétrica nuclear como a Constellation Energy dos EUA vemos que a margem EBITDA de energia nuclear geralmente fica entre 30 e 40% mesmo. A diferença é simples: fontes renováveis não precisam de insumo, insumos como o vento, o sol ou o movimento das águas são gratuitos enquanto o urânio enriquecido nem tanto.

E essa diferença mostra um pouco de porque o Brasil não investe mais em energia nuclear. Além de termos abundância de energia limpa, o investimento em usinas nucleares é altíssimo, só Angra 3 já consumiu mais de R$ 20 bilhões. Claro que sabemos que o Brasil não é para amadores, se usarmos Abreu e Lima ou Pasadena de referência conseguimos imaginar que dava pra gastar bem menos (até porque a obra de Angra 3 foi iniciada em 1984, paralisada por décadas e reiniciada com equipamentos obsoletos e logística cara, imagina a quantidade de sacanagem que não tem no meio).

Então, além de ter margem menor, o investimento é muito maior. Abaixo uma comparação geral comparando investimento por MW instalado de cada modal de energia:

Daí você vai perguntar: tá, por que não se investe só em solar ou eólica, se o investimento é menor e não demandam insumos caros? A resposta é: intermitência.

Solar não gera energia à noite e fica debilitada em dias nublados, o que demandaria estruturas de armazenamento e baterias — e aí já não fica mais tão barato. Eólica idem, mas depende do vento (onshore funciona entre 25% e 45% do tempo; offshore pode chegar a 60%). Hidrelétrica só tem intermitência em períodos de seca — e, em países grandes como o Brasil, esse risco é bastante mitigado (é muito difícil haver uma seca no país todo).

O papel da geração de energia nuclear é meramente estratégico. Como envolve engenharia de ponta, acaba financiando o desenvolvimento de tecnologias correlatas, funcionando como um indutor de inovação estratégica.

E o Brasil é quase autossuficiente: o único elo da cadeia que falta é a produção do gás necessário para enriquecer o urânio. (Parece pouco, mas apenas nove países têm oficialmente o ciclo completo do urânio in-house.)

Mas não é isso que puxa o investimento: é a questão geopolítica. Ser um “país nuclear” coloca o Brasil na mesa de discussão de assuntos atômicos da Agência Internacional de Energia Atômica. É caro? É. Mas talvez seja o menor investimento possível para conseguir estar sentado nessa mesa.

E estar sentado nessa mesa significa participar de decisões globais sobre não proliferação, segurança armamentista, tratados ambientais, sanções — e também em decisões que envolvem o comércio de urânio.

O Brasil tem muito potencial para ser um grande exportador. Talvez, no fim das contas, estar nessa mesa seja mais uma questão comercial do que qualquer outra coisa.

E se a ideia era só estar sentado na mesa, me parece até que o Brasil fez um investimento lean:

Cada país tem sua história na dependência nuclear. Países da ex-União Soviética, como Eslováquia e Hungria, seguiram esse caminho por legado soviético — que, por sua vez, surgiu como uma decisão estratégica de Stalin, um subproduto do desenvolvimento militar de bombas atômicas durante a corrida armamentista da Guerra Fria.

O restante da Europa sofreu fortemente com o choque do petróleo em 1972 e decidiu reduzir sua dependência estratégica do Oriente Médio — com destaque para a França, que levou a brincadeira muito a sério.

Enfim, é mais do que uma troca de CAPEX por watts. É uma alavanca de poder nacional, uma carta geopolítica, uma ferramenta de posicionamento estratégico no tabuleiro global.

A gente apita muito nesse campinho? Quase nada. Mas só faz gol quem está na área.

O paradoxo brasileiro: mais urânio que China e EUA, menos relevância que a Namíbia

Apesar da produção ainda modesta, o potencial do Brasil no setor nuclear é imenso. O país possui a sétima maior reserva de urânio do mundo, com 276 mil toneladas comprovadas — mais do que China (272 mil) e Estados Unidos (104 mil).

Com os investimentos certos, o Brasil poderia não apenas suprir sua própria demanda, mas também assumir um papel estratégico no fornecimento global de energia nuclear.

1. 🇦🇺 Austrália — 1.600.000 toneladas

2. 🇰🇿 Cazaquistão — 745.000 toneladas

3. 🇨🇦 Canadá — 509.000 toneladas

4. 🇷🇺 Rússia — 507.000 toneladas

5. 🇿🇦 África do Sul — 322.000 toneladas

6. 🇳🇪 Níger — 291.000 toneladas

7. 🇧🇷 Brasil — 276.000 toneladas

8. 🇨🇳 China — 272.000 toneladas

9. 🇳🇦 Namíbia — 267.000 toneladas

10. 🇲🇳 Mongólia — 141.000 toneladas

Ainda assim, o Brasil produz menos urânio que países com reservas menores, como Namíbia, Uzbequistão ou Níger.

Na minha visão, a lógica de ter reservas de urânio é parecida com a lógica que o criticado Paulo Guedes defendia em relação às reservas de petróleo: tem que extrair logo que daqui a pouco não vale mais nada. A hora de gerar valor pra população é agora, independente de deter a tecnologia ou não, o minério é uma commodity amplamente aceita mundo afora. É isso que o Cazaquistão está fazendo.

Especialistas inclusive acreditam que esse número brasileiro representa apenas a “ponta do iceberg”. Diversos estudos geológicos apontam a região amazônica como uma das áreas com maior potencial inexplorado do planeta, com grandes anomalias radiométricas detectadas em estados como Amazonas, Pará e Rondônia. A região de Carajás, por exemplo, é considerada promissora para futuras descobertas de urânio.

Apesar desse potencial, a exploração esbarra em desafios significativos: grande parte da Amazônia está em áreas de proteção ambiental, terras indígenas ou locais de difícil acesso, o que impõe barreiras legais, políticas e logísticas. Ou seja, o Brasil pode estar literalmente sentado sobre uma das maiores reservas de urânio do mundo — mas ainda carece de estratégia, tecnologia e regulação clara para transformar esse ativo latente em poder geopolítico.

Um novo xadrez geopolítico — e o Brasil fora do tabuleiro

A Rússia (via Rosatom) detém ~45% do mercado global de enriquecimento.

O Cazaquistão, com a Kazatomprom, lidera a produção de urânio bruto.

EUA e Europa correm contra o tempo para retomar a autossuficiência nuclear.

A China expande agressivamente seus reatores e estoques de combustível.

E isso tudo numa escalada absurda de preços nos últimos anos causada pela guerra da Ucrânia.

No meio disso tudo, o Brasil assiste de fora, produzindo exclusivamente para uso interno, operando uma estatal pequena, mas sem escala ou ambição internacional. Mas com muito potencial: as reservas atuais brasileiras são estimadas em mais de 300 bilhões de reais. Isso sem contar as potenciais reservas na Amazônia e outras regiões.

O que os balanços das Indústrias Nucleares do Brasil S/A revelam de verdade

O balanço da INB não é apenas uma fotografia contábil. É o retrato de uma escolha política: manter uma empresa estratégica viva, mas silenciosa. Competente, mas limitada. Sólida, mas subexplorada.

Com lucros consistentes, crescimento em linha com a inflação e um histórico de autossuficiência técnica, a INB é uma peça valiosa que o Brasil poderia jogar — se quisesse participar do jogo.

E o futuro?

A INB está no centro de três agendas globais:

1. Soberania energética

2. Autonomia tecnológica

3. Segurança geopolítica

O Brasil já tem o urânio. Já tem parte da tecnologia. Falta a decisão de transformar isso em poder real.

Na Klooks, gostamos de ir além das linhas de um DRE. Os dados financeiros contam histórias — e, às vezes, revelam os bastidores de um jogo geopolítico. Se você também acredita que soberania começa nos números, estamos por aqui para conversar. Datasets da INB utilizados nesse artigo disponíveis aqui.

  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar por E-mail
  • Compartilhar no LinkedIn
  • Compartilhar no WhatsApp
  • Compartilhar no Pinterest